O aço na construção civil – Ricardo Torrico
Siderurgia Brasil — Edição 64
Quando esta edição de Siderurgia Brasil estiver circulando, estarão faltando três anos e dez meses para o início do tão esperado – pelos brasileiros – Campeonato Mundial de Futebol em 2014. Depois de 64 anos de ter sediado a única Copa do Mundo realizada no país e do fiasco da participação brasileira na Copa da África do Sul, certamente há razões de sobra para que esse evento seja memorável. E se depender das promessas do governo (estamos em ano de eleição presidencial, lembram?), ela será uma Copa do Mundo digna do ‘país do futebol’, o único Pentacampeão do Mundo e cujas inúmeras belezas naturais ainda são desconhecidas no resto do planeta. A Copa do Mundo de 2014 seria, portanto, uma oportunidade única para multiplicar por dez o mirrado fluxo de turistas que o Brasil recebe do resto do mundo. Motivação, portanto, não falta para organizar esse grande evento. O grande problema, porém, é que, para não fazer feio, nosso país precisa recuperar décadas de atraso em sua infraestrutura, principalmente de todo o sistema de transportes e da rede hoteleira da maioria das cidades que sediarão os jogos. Em suas últimas entrevistas, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, quando perguntado sobre quais seriam as principais deficiências do país, respondeu: “aeroportos, aeroportos e aeroportos”. Talvez ele tenha se restringido aos aeroportos porque, provavelmente, passa mais tempo em aeroportos do que em rodovias e metrôs. O fato, porém, é que o Brasil não tem nenhuma cidade com condições mínima de sediar uma Copa do Mundo, começando pelos aeroportos, passando pelo sistema de transportes e terminando – obviamente – pelos estádios. Boas intenções e planos não faltam, mas ainda existe um abismo para ser transposto entre a intenção e a realidade. Afinal, preparar um país para sediar um megaevento como uma Copa do Mundo não é o mesmo que construir um novo condomínio ou shopping center. E, usando como referência, inclusive obras mais modestas como essas exigem, pelo menos, um par de anos para serem simplesmente construídas. O que dizer no caso de aeroportos, vias expressas, estádios e metrôs, que implicam demorados processos de licitação e desapropriação antes mesmo de se começar as obras. No caso de São Paulo, os planos estão listados no documento “São Paulo, Cidade-Sede da Copa de 2014”, disponível no site da São Paulo Turismo (SPTuris) (www.spturis.com), a empresa de turismo e eventos vinculada à prefeitura da cidade. Trata-se de um documento abrangente, redigido num tom otimista, como cabe à pujança do maior pólo econômico do país. “A metrópole, que é considerada um dos principais berços do futebol e sede de alguns dos mais importantes clubes do mundo, tem um grande projeto para o mundial e já começou a colocá-lo em prática, graças aos atributos de urbe vanguardista”, afirma em seu parágrafo introdutório. A realidade, porém, não coincide com esse otimismo, o que só aumenta as expectativas dos paulistanos e paulistas. Um exemplo dessa situação de incerteza foi dado no dia 21 de julho, no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, quando foi realizada uma reunião entre as principais lideranças relacionadas com o evento: o governador Alberto Goldman, o prefeito Gilberto Kassab e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O grau de expectativa pôde ser medido pela presença maciça de jornalistas de todos meios de comunicação – jornais, emissoras de TV, sites e revistas –, que esperaram durante mais de duas horas pelo fim da reunião, para conhecer as grandes diretrizes necessárias para dar o ponta-pé inicial das obras. Os jornalistas, porém, tomaram uma verdadeira “ducha fria”, na forma de uma declaração conjunta que não chegou a durar cinco minutos, a qual pode ser resumida assim: “O governo do estado, a prefeitura da cidade e a CBF se comprometeram a unir seus esforços para viabilizar a cidade de São Paulo como sede da abertura da Copa do Mundo de 2014”. Além disso, a única informação dada, tanto por Goldman como por Kassab, foi que não há a mínima possibilidade de se utilizar recursos públicos – pelo menos do estado ou da prefeitura – para construir ou reformar um estádio.
Obras necessárias – O que São Paulo precisa para sediar a abertura da Copa do Mundo não é novidade para ninguém. Basta embarcar ou desembarcar no aeroporto de Guarulhos e dar umas voltas pela cidade, de segunda a sexta-feira, das 7h às 20h, para entender o tamanho do desafio que “o estado mais pujante do país” tem pela frente para não dar um tremendo vexame. Além disso, o próprio estádio em que seria realizada a abertura sequer foi escolhido. Seguindo a hierarquia de urgências do presidente da CBF, a primeira grande obra a ser implementada é a ampliação da capacidade do Aeroporto Internacional de Guarulhos, cujo limite já foi ultrapassado há muito tempo. A solução será a construção de um novo terminal de passageiros, cuja licitação foi concluída no último dia 6 de julho. O prazo para a conclusão da obra é de 23 meses, contados a partir da expedição de uma ordem de serviço a ser emitida pela Infraero. A Infraero informou que vai investir R$ 952 milhões no aeroporto até 2014, para ampliar sua capacidade de 24 milhões para 35 milhões de passageiros ao ano. O início das obras – e do prazo estabelecido pelo contrato – só dependem agora da emissão da tal ordem de serviço pela Infraero, cuja data é ainda desconhecida.
Estádio no limbo – Se o grande problema do aeroporto já está pelo menos equacionado, o mesmo não se pode dizer do estádio, cuja definição se encontra na mesmo situação do dia em que o Brasil venceu a concorrência para sediar a Copa, há quase três anos. A CBF e a Fifa já descartaram o estádio do Morumbi, argumentando que o projeto de ampliação e modernização apresentado pelo São Paulo F.C., proprietário dessa arena, não preenche os requisitos exigidos para a realização de um evento dessa magnitude. Em termos financeiros, isso pode ser entendido assim: o projeto que o São Paulo F.C. apresentou custaria R$ 250 milhões, mas o projeto que a Fifa e a CBF aprovam teria um custo de R$ 650 milhões. Como não apareceram investidores com condições de bancar o projeto aprovado pelas duas instituições, o plano B seria a construção de um novo estádio no bairro de Pirituba. No entanto, a origem dos recursos financeiros necessários para viabilizá-lo – já que tanto o governo do estado quanto a prefeitura têm sido enfáticos ao dizer que não vão bancar essa obra – é ainda uma grande incógnita. Detalhe: a prefeitura, porém, já disse que poderá bancar toda a infraestrutura adicional necessária para viabilizar o estádio a ser construído.
Cidade paralisada – Entre o aeroporto e o estádio, está o terceiro grande problema que São Paulo precisa resolver: seu caótico sistema viário. As duas grandes obras recentemente inauguradas – o Rodoanel e a ampliação da Marginal – não fizeram mais do que aliviar superficialmente a vida de quem se desloca diariamente dentro da cidade. O metrô tem ampliado suas linhas e, até 2014, já deve estar em funcionamento toda a linha Amarela, que, por sinal, tem uma estação localizada a um quilômetro do estádio do Morumbi – justamente aquele que acaba de ser vetado pela Fifa e CBF. Novas grandes obras para aliviar o tráfego da cidade não estão previstas, e o que deve ser feito nos próximos anos provavelmente vai servir apenas para acompanhar o crescimento de sua frota de automóveis. Vale lembrar que o dito ‘horário de pico’ do tráfego paulistano já se estendeu até as 20 horas. Além disso, se um novo estádio vier mesmo a ser construído no bairro de Pirituba – uma região extremamente carente de vias expressas –, serão necessárias muita criatividade e obras em ritmo de emergência para resolver o problema do seu acesso até 2014.
Vantagem do aço – Se algum proveito pode ser obtido do ritmo das decisões para a realização dessas obras, uma coisa é certa: elas contarão com as vantagens do aço como o material mais adequado para obras que exigem agilidade. Como afirma o arquiteto Siegber Zanettini (leia entrevista nesta edição), “hoje não se faz nenhuma obra importante no mundo que não seja em aço”. Dado o caráter emergencial das obras necessárias para que a cidade de São Paulo possa sediar a abertura da Copa de 2014, a construção em aço deverá ser a principal – senão a única – solução para agilizá-las de modo a que estejam concluídas em um prazo tão exíguo.
|