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Competitividade perdida no portão da fábrica – Luiz Aubert Neto

Siderurgia Brasil — Edição 65

Em entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, analisa os fatores que reduzem a competitividade dos fabricantes nacionais desse setor, e propõe soluções.

Siderurgia Brasil – Como o senhor avalia a política de controle da inflação através da elevação da taxa Selic?
Luiz Aubert Neto – Ninguém pode ser contrário ao controle da inflação, mas para controlar o excesso de demanda, sempre se fala em aumentar a taxa de juros. Será que essa é a única política que existe para controlar a inflação? Nós precisamos observar a diferença entre o excesso de consumo e o investimento. Alguns setores estão com excesso de consumo, mas nunca houve excesso de investimento no Brasil. Portanto, não é possível tratar essas duas questões da mesma forma. A questão é como reduzir o excesso de consumo, sem aumentar a taxa de juros, que tem uma correlação direta com investimento. Ou seja, quando se aumenta a taxa de juros, o investimento cai.

SB – Qual seria, então, a solução para controlar a inflação sem aumentar a taxa de juros?
Aubert Neto – O problema é que o excesso de demanda também decorre do fato de que hoje é possível comprar um automóvel em 86 meses ou um liquidificador em 36 meses. Se o governo quer acabar com o excesso de demanda, ele deveria limitar o prazo de financiamento de automóveis a, no máximo, em 24 meses, e de liquidificadores a 12 meses. Com medidas como essa, em 90 dias, o excesso de demanda desapareceria – sem precisar mexer na taxa de juros. Depois, dependendo do comportamento do mercado, esses prazos poderiam ser ampliados ou não.

SB – Qual tem sido o impacto do Programa de Sustentação do Investimento para o setor de máquinas e equipamentos?
Aubert Neto – O BNDES está sofrendo críticas por causa dos juros subsidiados oferecidos pelo PSI a alguns setores, mas é necessário ver quais são os interesses que estão por trás disso. No entanto, se não fosse o PSI, provavelmente nosso setor estaria perdido. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o subsídio do PSI, que é a diferença entre a taxa oferecida por esse programa e a taxa Selic, e é bancada pelo Tesouro Nacional, representa cerca de R$ 5 bilhões por ano. Este ano, nosso setor vai faturar R$ 80 bilhões, em números redondos. Se não fosse o PSI, a queda desse faturamento seria de, no mínimo, 30%, ou seja, R$ 24 bilhões. Só que, uma empresa do setor compra o equivalente a, no mínimo, 40% de seu faturamento. Portanto, por causa desses R$ 24 bilhões que deixariam de ser faturados, o setor também deixaria de comprar quase R$ 10 bilhões. Ocorreria, então, uma redução de praticamente R$ 35 bilhões no faturamento de toda a cadeia do nosso setor. Até agora só estamos falando do setor de bens de capital; não falamos ainda de caminhões ou tratores, que também são contemplados pelo PSI. Eu calculo que, só nesses três setores, o faturamento anual deve chegar a R$ 100 bilhões. Imagine quanto o governo deixaria de arrecadar sobre esse montante, além do desemprego que certamente ocorreria, que poderia atingir 100 mil ou 150 mil pessoas, cujos salários simplesmente desapareceriam do mercado. É fácil calcular que o benefício resultante do PSI é muito maior do que os R$ 5 bilhões que ele subsidia.

SB – Mas, então, por que são feitas críticas ao PSI?
Aubert Neto – Para entender essas críticas, precisamos fazer algumas contas. Qual é o banco que gosta de financiar máquinas, com juros fixos de 5% ao ano, com um spread bancário de 1,5%? Nenhum banco quer fazer isso, porque ele corre o risco e ganha muito pouco. Os bancos fazem, então, a seguinte conta: considerando que R$ 180 bilhões foram destinados ao BNDES, se os bancos repassassem a metade desse valor às empresas a 20% ao ano, que é o mínimo que o banco cobra, eles obteriam um lucro de R$ 18 bilhões ao ano ou, em cinco anos, quase R$ 100 bilhões! E outra questão é: por que o Brasil precisa do BNDES? Porque a taxa de juros praticada no Brasil é uma das maiores do mundo. Se as empresas brasileira pudessem obter empréstimos com taxas de 2% ou 3% ao ano no sistema bancário, o BNDES não precisaria existir. Mas se um empresário quiser obter financiamento num banco para comprar uma máquina, ele não consegue uma taxa menor do que 20% ou 25% ao ano, enquanto o PSI cobra 5,5%.

SB – Além dos juros, o que mais pesa no custos de produção das máquinas e equipamentos nacionais?
Aubert Neto – A Abimaq elaborou um estudo chamado “Custo Brasil”, no qual foram excluídos a China e o câmbio. Esse estudo compara uma empresa brasileira com uma empresa alemã. O que foi comparado foi a taxa de juros, o crédito, os encargos trabalhistas, a logística, a burocracia... No total são sete itens. A conclusão à qual se chegou é que, se uma empresa alemã, que vende um produto na Europa por € 100, instalasse uma filial no Brasil para fabricar esse mesmo produto, ela precisaria vender esse produtos por € 136. Ou seja, no Brasil, esses sete fatores encarecem o custo de produção em 36%! Isso demonstra que as empresas brasileiras são competitivas da porta para dentro, mas na hora em que elas emitem uma nota fiscal, elas perdem toda sua competitividade.

SB – A Abimaq tinha ou ainda tem um escritório de representação na China?
Aubert Neto – A Abimaq fechou seu escritório na China, porque ele começou a se tornar o “portal do mal”. O objetivo original desse escritório era conhecer os concorrentes e tentar vender aos chineses, mas durante os três anos em que ele funcionou, 99,9% das empresas brasileiras que o utilizavam iam para lá com a intenção de contatar empresas chinesas para representá-las aqui, no Brasil. Nós percebemos que estávamos facilitando esses contatos, porque a Abimaq tinha um funcionário chinês que falava português e que agendava as visitas às empresas. Só que depois disso, nós não sabíamos o que acontecia. Essas empresas iriam à China de qualquer jeito, mas nós não precisávamos facilitar isso. Hoje, são poucas as empresas brasileiras que estão instaladas na China, como a WEG, que fabrica motores lá, mas outras empresas nacionais, como a Embraer, fecharam suas filiais porque provavelmente os chineses já estão copiando seus produtos.

SB – É verdade que alguns fabricantes do setor deixaram de fabricar no Brasil e estão trazendo máquinas chinesas com suas marcas e, inclusive, manuais em português?
Aubert Neto – Infelizmente, isso é verdade. Um exemplo disso é o de um empresário que tinha 300 funcionários e hoje está com 30. Ele não fabrica mais nada e importa tudo da China, e diz que sua lucratividade triplicou, sem precisar descontar duplicatas nem se preocupar com o custo de produzir no Brasil. O fato é que existem máquinas chinesas cujo preço é menor do que o custo da matéria prima utilizada em seus componentes. Na Abimaq, nós implantamos o Projeto Semáforo, destinado a detectar os casos de dumping na importação de máquinas e equipamento, mas ele está começando agora e esperamos ter alguns resultados nos próximos meses.

SB – O senhor concorda com a opinião de alguns economistas, de que o Brasil corre o risco de se ‘desindustrializar’?
Aubert Neto – O Brasil está, de fato, caminhando rumo à sua desindustrialização. Analisando a pauta de exportações do país, verificamos que este ano vai ser o primeiro de nossa história recente em que o valor das commodities vai superar o de produtos semifaturados. As empresas mineradoras recebem concessões do Estado para explorar as jazidas que, em tese, pertencem a todos os cidadãos, mas o lucro dessas empresas não é distribuído com ninguém. Elas estão corretas em tentar maximizar seus lucros, porque isso faz parte do jogo. Só que, considerando que se trata de uma concessão, o governo deveria exigir que, se elas forem comprar máquinas fora do país, elas paguem um imposto de importação adicional de, digamos, 30%. Essas empresas precisam assumir a responsabilidade de fazer desenvolver toda a cadeia produtiva. Para elas é fácil nos chamarem de incompetentes quando nós temos o câmbio a R$ 1,75, uma carga tributária de 35% e uma taxa de juros de 10,95%. Ou seja, tendo essas desvantagens, não dá para competir. Não se trata também de tributar o minério de ferro, mas de criar um imposto de importação para equipamentos, e os recursos arrecadados poderiam ser investidos em, por exemplo, renovação tecnológica, o que daria uma condição de igualdade para os fabricantes nacionais em relação aos estrangeiros.
www.abimaq.org.br