Fechar
|
|
|
|
Que país queremos ser? (IABr) Se, por um lado, a siderurgia brasileira fechou o ano de 2010 com números recordes no setor do consumo aparente e nas importações de aço, uma sombra se projeta nesse cenário brilhante: o sucesso no consumo não significa recorde de produção de aço, mesmo com sobra de capacidade. São necessárias, portanto, medidas urgentes para preservar o mercado interno e evitar a desindustrialização do país, que atinge o setor como um todo. Este foi o ponto principal levantado pelo Instituto Aço Brasil (IABr) na avaliação sobre o desempenho anual do setor. O presidente executivo, Marco Polo de Mello Lopes, analisou a situação em nosso país, enquanto o presidente do conselho diretor, André B. Gerdau Johannpeter, apresentou o panorama do mercado global, com dados que trouxe do Congresso Mundial do Aço, da World Steel Association, no Japão, e do Congresso Latino-Americano de Ferro e Aço, Ilafa, na Argentina. Segundo as projeções do Instituto (confira o gráfico), o consumo aparente no Brasil chega a 26,8 milhões de toneladas em 2010 (44% maior do que em 2009 e 11% acima de 2008). Esse aumento se deve essencialmente às importações, estimadas em 5,9 milhões de toneladas neste ano - um crescimento de 154% em relação a 2009 e de 123% se comparado ao de 2008. Para se ter uma ideia, o total das importações supera a capacidade de produção da Usiminas. "Neste ano pós-crise, a América Latina passou a atrair volumes crescentes de exportações", diz André Johannpeter. "Isso foi claramente sentido no Brasil." Essa subida meteórica reflete, entre outros, os efeitos nocivos do câmbio supervalorizado no Brasil, em contraponto às taxas altamente favoráveis à exportação oferecidas em diversos países, todos grandes exportadores; os elevados excedentes em oferta no mercado mundial, com preços artificialmente baixos; e a existência de incentivos tributários estaduais às importações que prejudicam o desenvolvimento da indústria e a geração de empregos no Brasil. Diante desse quadro, o presidente Marco Polo destaca a pergunta que deve ser feita pelo governo e pelos setores industriais brasileiros: "Que tipo de país queremos ser?" E completa: "Queremos ser apenas um exportador de bens primários? Então, não vamos mais batalhar por investimentos. Mas se queremos ser um país industrial, nesse caso é necessário entrar em ação para proteger o nosso mercado interno e poder enfrentar a competição cerrada no mercado mundial, passando a ter um crescimento sustentável." A guerra fiscal entre os Estados, com o pretexto de incentivar o comércio, é uma das causas do "fenômeno importações", na opinião do Instituto Aço Brasil. Marco Polo diz que treze Estados estão oferecendo benefícios tributários à importação que não passaram pela aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Órgãos representativos da classe empresarial, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e dos trabalhadores, como a Força Sindical, já entraram com ações junto ao Supremo Tribunal Federal questionando a constitucionalidade dos incentivos oferecidos no Paraná e Santa Catarina. Outras ações vão ser instauradas contra os demais Estados. O Instituto Aço Brasil apoia essas medidas, mas a iniciativa é de cada empresa. "É importante lembrar que 58% das importações estão entrando por aqueles portos", ressalta o presidente. "Estamos trabalhando junto aos maiores Estados consumidores - São Paulo e Minas Gerais - para não reconhecerem esses benefícios". Outro fator relevante foi a especulação sobre a alta dos preços, que afinal nem houve, acentua o presidente. "Quando foi anunciada a mudança na sistemática de reajustes no preço do minério, que passou de semestral para trimestral, houve um alvoroço entre os distribuidores", comenta. "Muitos aumentaram as importações, outros se encheram de aço, esperando a subida dos preços que não aconteceu". Segundo Marco Polo, diante da incerteza da situação, não há expectativa de reajustes. De acordo com os dados do Instituto Aço Brasil, a produção de aço bruto no país deve fechar o ano de 2010 com 33,1 milhões de toneladas (25% maior do que em 2009). Para 2011 a previsão é de 47 milhões de toneladas. As vendas internas cresceram 30,4% em relação a 2009, alcançando em 21,3 milhões de toneladas em 2010. As exportações de produtos siderúrgicos, porém, tiveram um crescimento mínimo - apenas 1% em relação a 2009. Diante das projeções macroeconômicas do país para 2011, o IABr estima um aumento de 6% no consumo aparente de produtos siderúrgicos. Quanto aos números do comércio exterior, o presidente Marco Polo acentua que não é possível prever, pois vão depender da evolução das condições de competitividade da indústria brasileira frente à concorrência desleal, custos tributários elevados, e à política cambial. "A perversidade em relação ao câmbio ataca todo o setor", afirma. "O setor automotivo, por exemplo, enfrenta problemas imensos com a entrada de tantos carros importados". Com o temor de uma desindustrialização do país, as empresas deixam de fazer investimentos. "A discussão é complexa", reconhece o presidente, acrescentando que existe uma mobilização do Brasil no sentido de definir as medidas a serem tomadas diante desta conjuntura. "Estamos num momento de reflexão", resume. Marco Polo explica que há três blocos de investimentos: os que já estão em andamento; o PAC, que já é oficializado e prevê, de 2009 a 2014, a utilização de sete milhões de toneladas de aço, num total de 8,4 bilhões de dólares; a Copa de 2014, Olimpíadas de 2016, o Pré-Sal, PAC 2, Minha Casa, Minha Vida; e os projetos em estudos e planejamento, que passam por uma reavaliação diante do cenário atual. Seriam 22,5 bilhões de dólares de investimento, utilizando 21 milhões de toneladas. Em 2016, o Brasil estaria produzindo 77 milhões de toneladas. Como ficam esses projetos? É um ponto de interrogação para a siderurgia. Ao apresentar o balanço do mercado mundial, André Johannpeter enfatizou que as preocupações do nosso setor produtivo também existem no âmbito global. "De acordo com as avaliações apresentadas pela Worldsteel Association (WSA) no Congresso Mundial do Aço, realizado no Japão em outubro de 2010, há um excedente de capacidade de produção de aço no mundo estimado cerca de 550 milhões de toneladas por ano. Isso corresponde a 40% do consumo global previsto para 2010, e a mais de quinze vezes a produção brasileira estimada para este ano," diz. Os altos índices de excedentes se devem a três fatores: o excesso de capacidade; os elevados subsídios outorgados por alguns países, em particular a China; condições de financiamentos incompatíveis com as práticas usuais do mercado. A China continua a crescer num ritmo assustador. Basta ver que a produção de aço naquele país, em 2010, foi de 788 milhões de toneladas, enquanto a América Latina toda produziu 95 milhões de toneladas. Na mesma comparação, o consumo aparente na China atingiu 603 milhões de toneladas, e na América Latina, 69 milhões. O excesso de capacidade na China foi de 185 milhões de toneladas, contra 26 milhões na América Latina. No consumo per capita, o Brasil está estagnado desde 1980 - houve até uma queda, de 100,6 kg por pessoa (1980) para 97 kg em 2009. Já a China saltou de 34,1 kg por habitante (em 1980) para 405,2 kg/habitante em 2009. Há um exemplo que ilustra a influência do câmbio e valorização da moeda local em relação ao dólar. Enquanto o preço de um big-mac no Brasil é 40% mais caro do que nos Estados Unidos, na China custa 40% a menos. Observando o quadro relativo à origem das importações, também se pode constatar que, entre 2009 e 2010, o crescimento da China passou de 18,6% para 30,3%. Houve um aumento da Rússia (de 3,8% para 10,3%). Todos os outros países tiveram um decréscimo. "Há um grande distanciamento do Brasil em relação ao mundo, quando se analisa o consumo e a importação. Este é um dado que nos preocupou e preocupa", diz André Johannpeter. Nossas exportações vão depender da guerra cambial, e das especulações do setor. Há 38 processos antidumping sendo movidos por empresas que se sentem prejudicadas. O IABr batalha há um ano pela valoração aduaneira, que pode evitar o subfaturamento. Há também um trabalho com a Fiesp para o preparo de técnicos que atuam nas aduaneiras. Diante da mudança de governo, quais as expectativas do Instituto Aço Brasil? "A siderurgia tem o conforto de saber que a presidente eleita, Dilma Rousseff, ocupou o Ministério de Minas e Energia, e conhece profundamente o nosso setor", diz Marco Polo. "Então, esperamos ter mais diálogo. O Instituto Aço Brasil não tem a pretensão de apresentar solução para uma situação que é macro. Mas sabemos do que precisamos: 1) Estabilidade de regras, 2) Isonomia competitiva, 3) Medidas para que o mercado interno possa crescer de forma sustentável." Só assim, acredita o IABr, o país evitará a desindustrialização e a siderurgia poderá realmente crescer. OS NÚMEROS DA SIDERURGIA EM 2010 Os principais indicadores da indústria siderúrgica nacional durante o ano de 2010, consolidados pelo IABr, sinalizam as tendências desse setor nos próximos anos. Produção - No mês de dezembro de 2010, a produção brasileira de aço bruto foi de 2,4 milhões de toneladas, representando uma queda de 7,4% em relação ao mês anterior e de 6,7% sobre dezembro de 2009. A produção de aços laminados foi de 1,8 milhão de toneladas, o que significou uma redução de 12,2% em relação ao mês anterior e de 9,6% sobre dezembro de 2009. De janeiro a dezembro de 2010, a produção de aço bruto atingiu 32,8 milhões de toneladas, representando um aumento de 23,8% em relação ao ano anterior. A produção de laminados foi de 25,8 milhões de toneladas, volume 27,7% maior do que o de 2009. Vendas internas - Em dezembro de 2010, as vendas internas atingiram 1,5 milhão de toneladas, o que significou uma queda de 7,8 % em relação ao mês anterior e de 0,5% em relação a dezembro de 2009. No período de janeiro a dezembro de 2010, as vendas internas totalizaram 21,1 milhões de toneladas, representando um crescimento de 29,2% em relação a 2009. Exportações - Em dezembro de 2010, as exportações de produtos siderúrgicos atingiram 1,1 milhão de toneladas e US$ 766 milhões. Em todo o ano de 2010, as exportações totalizaram 9 milhões de toneladas e US$ 5,8 bilhões, representando um aumento de 4,1% em volume e de 22,8% em valor, em comparação com os resultados obtidos em 2009. Importações - Em dezembro, as importações de produtos siderúrgicos atingiram 432 mil toneladas e US$ 452 milhões, o que significou uma queda de 4,8% em relação a novembro, em volume. De janeiro a dezembro de 2010, as importações totalizaram 5,9 milhões de toneladas e US$ 5,5 bilhões, o que representou um volume 154,2% acima do importado em 2009. Consumo aparente - No mês de dezembro, o consumo aparente (produção - exportações + importações) de produtos siderúrgicos foi de 1,9 milhão de toneladas, volume 10,9% maior do que o registrado em dezembro de 2009. Durante todo o ano de 2010, o consumo aparente nacional de produtos siderúrgicos atingiu o nível recorde de 26,6 milhões de toneladas, representado uma elevação de 43,1% em relação a 2009. www.acobrasil.org.br |





























