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IABr - SIDERURGIA SAI DA CRISE DE CABEÇA ERGUIDA

Guia da Siderurgia — Edição 2010
Panoramas Setoriais - Flávio Roberto Silva de Azevedo presidente do IABr


Não foram fáceis os catorze últimos meses para a economia global, e a siderurgia sofreu os abalos da crise devastadora que se abateu sobre todos os setores do mercado no final de 2008. A produção e o consumo de aço no Brasil e no mundo tiveram forte queda, como demonstram as estatísticas levantadas pelo Instituto Aço Brasil (ver os gráficos). Em entrevista coletiva, o engenheiro Flávio Roberto Silva de Azevedo, presidente do Instituto Aço Brasil (IABr), e o vice-presidente, Marco Polo de Mello Lopes, avaliaram o desempenho da siderurgia no país em 2009. Apesar da retomada do crescimento constatada nos últimos meses, o consumo doméstico do aço foi de 18,8 milhões de toneladas, e a produção de 26,7 milhões de toneladas, o que significa respectivamente quedas de 21,9% e 20,8% em relação ao ano passado. Embora tenha havido um ligeiro aumento nas exportações, estimadas em 9,5 milhões de toneladas, a queda nos preços internacionais prejudicou a receita, que foi 36% menor que a de 2008.
“O primeiro trimestre foi terrível”, analisa Flávio Azevedo. “Tivemos seis altos-fornos parados; houve férias coletivas e acordos. Ou seja, fizemos de tudo para superar a crise. O setor, que sofreu uma queda de 80% no final de 2008, teve que se voltar para o mercado externo, mas este também estava catastrófico. O governo deu uma injeção na veia dos setores mais produtivos, com a redução do IPI, que possibilitou manter ativos os segmentos de construção civil, automotiva e de linha branca. Ao longo de
2009 operamos abaixo
de 50%”.
Os problemas não acabaram e ainda há dois altos-fornos (CST e Usiminas) desligados. Mas a siderurgia, como um todo, está se reerguendo. “No segundo semestre começou um movimento de recuperação, alinhado aos outros setores, que nos permite ter boas perspectivas para o próximo ano”, diz Flávio Azevedo. Segundo as projeções do Instituto, o consumo aparente deve crescer 21,6%, atingindo 22,9 milhões de toneladas. A produção do aço bruto, por sua vez, pode aumentar 24,2%, chegando a 33,1 milhões de toneladas.
Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas este ano, o Instituto Aço Brasil está otimista e prevê, para 2010, uma forte retomada nos níveis de atividades da indústria do aço no país. Este otimismo tem base no bom momento que atravessa a economia brasileira, cujos reflexos são visíveis no desempenho dos setores consumidores. Principalmente, fundamenta-se no início da implantação de três grandes projetos – o de Petróleo e Gás, a Copa do Mundo e as Olimpíadas –, cuja infraestrutura vai exigir uma demanda adicional avaliada em 8 milhões de toneladas. Para a Copa do Mundo de 2014, com orçamento de US$ 56 bilhões, a previsão é de 4,5 milhões de toneladas adicionais. As Olimpíadas de 2016, orçadas em US$ 16 bilhões, demandarão 1,3 milhões de toneladas adicionais. Já os projetos de petróleo e gás (Prominp/Usiminas) vão exigir 2 milhões de toneladas adicionais durante a sua execução, de 2010 a 2016. As projeções apontam ainda para um adicional de cerca de 1,1 milhão de toneladas de produtos siderúrgicos por ano, no período de 2009 a 2016. “Há ainda as obras do PAC, as quais esperamos que deslanchem”, acrescenta o presidente do Instituto.
A questão da capacidade x demanda não preocupa o Instituto Aço Brasil. “Queremos desmitificar as especulações desabonadoras sobre a capacidade do setor para atender às demandas adicionais”, enfatiza Flávio Azevedo. “O setor está mais que instrumentado para atender à demanda interna. Não só está preparado, como tem aço de sobra para todos os eventos”, garante. “Em 2009, produzimos 20 milhões de toneladas, com uma capacidade instalada de 42 milhões de toneladas. Além disso, deverão ser retomados os investimentos e projetos de expansão, que estavam na gaveta por causa da crise. Isso permitirá o pleno abastecimento do mercado interno e a manutenção em nível elevado das exportações. A siderurgia vai continuar entre os segmentos mais importantes na geração de saldo comercial do país.”
Um ponto muito importante para o Instituto é rebater as acusações de que o aço é responsável pela subida dos preços de produtos. “Há muita discussão e uma visão distorcida da realidade”, afirma o presidente do IABr. “O setor está cansado de servir de alavanca na venda e de ser apontado como indutor dos aumentos. O aço é um elemento de peso, não de preço.”
Para acabar com a confusão entre ‘peso’ e ‘custo’, o Instituto Aço Brasil, com a ajuda do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), fez uma pesquisa muito interessante. Foram comprados e desmanchados dois carros (um popular e um de luxo) e dois produtos da linha branca (um fogão de 4 bocas e uma geladeira de uma porta, de 241 litros). A seguir, foram pesados todos os componentes de aço usados em cada produto e conferidos os preços de cada um, com impostos. O resultado revelou que, num carro popular, o aço corresponde a 55% do peso e a 9,01% do preço. No carro de luxo, o aço entrou com 50,3% do peso e 6,89% do preço; no fogão, o aço correspondeu a 75% do peso e 17,88% do preço; e na geladeira, a porcentagem foi de 55,1% do peso e 10,03% do preço. “Fica bem claro nesta pesquisa que o aço não é um elemento inflacionário”, ressalta Flávio Azevedo. “A mesma coisa acontece no setor de construção civil. O insumo do aço não é maior do que 10%, enquanto a mão de obra chega a 50% do custo total.”
Quanto ao problema dos preços, realmente há um descompasso entre o que se paga pelo aço produzido no Brasil e o do mercado externo. Isso faz com que, muitas vezes, como tem acontecido na indústria de autopeças, seja mais compensador importar uma peça pronta. “No mundo inteiro o preço do mercado interno é maior do que o do mercado externo. Onde a cadeia produtiva não tem competitividade, as peças prontas saem mais baratas,” observa Marco Polo de Mello Lopes.
No panorama internacional, o mercado do aço também registrou uma retomada no crescimento, porém menor que a do Brasil. Com exceção da China, cujo desempenho se destaca do resto do mundo, o consumo aparente global de 2009, estimado em 1,1 bilhões de toneladas, caiu 23% em relação ao ano passado. Para 2010, as expectativas são positivas. A World Steel Association prevê um crescimento de 9,2% no consumo, devendo chegar a 1,2 bilhões de toneladas de produtos. A China, como vem acontecendo, não apresentou queda na produção. Mesmo tendo sofrido os impactos da crise, registrou um crescimento que deve atingir 18,7% em 2009, num volume que representa 44% da capacidade de produção mundial. Merece atenção o fato de que aquele país acumulou um excedente de 619 milhões de toneladas.
Alinhado com a preocupação global com as mudanças climáticas e como representante da indústria brasileira do aço, o Instituto Aço Brasil estabeleceu metas voluntárias e obrigatórias visando à redução das emissões de gases de efeito estufa. Também se empenha em projetos para o desenvolvimento limpo e para a geração de créditos de carbono para o país, e está realizando estudos para avaliar as oportunidades e riscos para a competitividade dos nossos produtos, devido à regulamentação nacional e internacional.
Segundo os levantamentos do Instituto, na produção do carvão mineral ou coque, os gases de coqueria e de alto-forno são aproveitados para a cogeração de energia elétrica. A capacidade instalada é um pouco acima de 1.000 MWh, permitindo gerar um montante de eletricidade superior a 7,7 milhões de MWh por ano. No item da sucata, cem por cento das escórias de alto forno são utilizadas na produção de cimento, substituindo o clínquer e reduzindo as emissões de CO2 desse processo. A indústria brasileira do aço tem onze projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) já em operação ou em fase adiantada. Nossas empresas produtoras de aço participam de projetos internacionais destinados a desenvolver tecnologias inovadoras de redução da emissão de CO2 no processo siderúrgico.
Reiterando a importância dos bens de capital, o Instituto continua batalhando junto ao governo pela diminuição das taxas de juros, menores cargas tributárias, incentivo aos produtores, empenho do Itamarati na abertura de mercados e necessidade de ampliar as exportações. O governo sabe dos desafios que o setor enfrenta com o impacto do dólar e a valorização do real, e tem se mostrado sensível. Alguns ajustes foram feitos, mas ainda é baixa a taxa de investimento em relação ao PIB. “A crise mostrou que vamos ter um mundo diferente. A concorrência será muito mais acirrada e as competições muito maiores”, acentua Marco Polo. E Flávio Azevedo completa: “Como engenheiro metalurgista, orgulho-me
de trabalhar neste setor que está tão presente no dia a dia do país. Não é crível o desenvolvimento de um país sem uma boa base de crescimento, que é a siderurgia”.
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